domingo, 10 de outubro de 2010

MEU SILÊNCIO

MEU SILÊNCIO
Aparecido Donizetti Hernandez



Em meu profundo silêncio estou pensando em ti,
Vendo-a sonolenta na cadeira,
Imagino se estás sonhando...
Sonhando com o que?...


Nesta viagem de sonho,
De seus sonhos,
Onde me encontro,
Imagino estar em seus sonhos,
Nesse túnel do tempo
Transportando a ti para longe...
Longe do meu silêncio.

Silêncio que faço
Em meus tortuosos pensamentos
Que me transporta para perto de ti,
Tentando encontrar-te nos meus sonhos,
E estar em seus sonhos...

sábado, 9 de outubro de 2010

NA PONTA DO LÁPIS

NA PONTA DO LÁPIS
Aparecido Donizetti Hernandez

Com suas mãos em minhas mãos
Desenhei as primeiras letras,
Construí as primeiras palavras,
Fiz os primeiros desenhos,
Aprendi o alfabeto,
Iniciei na gramática,
Contigo aprendi matemática,
Aprendendo a somar e a dividir os números.

Contigo conheci deuses e semideuses
Que moraram no Monte Olímpo,
Passiei em cavalos alados...

Contigo aprendi a conhecer os relevos,
As montanhas e o planalto,
A ver as estrelas e os planetas.
Aprendi o que é o nível do mar,
O que está acima do nível do mar,
Conheci a história da humanidade,
A passada e a contemporânea.

Com suas mãos a gesticular me fez pensar...
Conhecer o folclore:
Curupira, Negrinho do Pastoreiro e Salamanca do Jarau.
Contigo, a me fazer pensar, abriu-me o mundo
Nos livros que me fizestes ler, reler e sintetizar.
Contigo, nosso mundo está nas mãos
E tu os transporta ao nosso cérebro
.
Não te esqueço com suas mãos em minhas mãos,
E na ponta do lápis me ensinastes a escrever e a ler
As primeiras letras desenhadas
E as primeiras palavras construídas
Que abriu-me o mundo...
Meus Mestres!

sábado, 2 de outubro de 2010

OVOS DE ANU

OVOS DE ANU
Aparecido Donizetti Hernandez
- Prosa -

A vida no interior era boa e, ao mesmo tempo, dura: boa para a infância, onde o menino brincava com seu carro de boi feito de lata de sardinha em conserva, onde fazia dois furos, passava barbante, com gravetos furava duas pequenas laranjas ou limões sicilianos e atrelava sua junta ao seu carro de boi feito de metal.
- Deitado ao chão puxava de lá para cá seu carro de boi cheio de gravetos imitando o que via no original. Esvaziava e enchia de novo... assim passava horas e horas sob a sombra do pé de carambola, onde o chão era de areia tão fina e branca que parecia talco -
Ao mesmo tempo em que fazia sua lida imaginária olhava as jabuticabeiras em flor, a grande árvore de manga-espada florida, ouvia o cantar do canário-da-terra... ao longe chamava a atenção um bando de anus; e o menino quando não estava na lida com seu carro de boi, ia visitar os enormes ninhos e recolher seus ovos brancos que colocados às mãos ficavam azulados.
Como poderia o menino resistir em tê-los às mãos?
Com mãos habilidosas nona Amélia fazia colares: com agulha fazia dois furos nas extremidades dos ovos, com jeito e paciência para não quebrá-los, retirava clara e gema, passava linha por entre os ovos, um a um, e estava pronto o colar azul para enfeitar o pescoço do menino.
Enquanto brincava, ora de carro de boi, ora procurando ninho de canário-da-terra, acompanhando o botar dos ovos, acompanhando passo a passo o nascer de novos canários e seu desenvolvimento... às vezes, na companhia de um enorme cão chamado Gavião.
Na primavera, com as jabuticabeiras, o pé de carambola e o cafezal em flores também floresciam os capitães num lindo jardim reservado somente a eles - era o xodó de nona Amélia - , onde borboletas multi-coloridas passeavam... mas menino é menino e lá se ia de peneira às mãos caçá-las e amassar as flores de Capitão.
A brincadeira de caçar borboletas era a brincadeira condenada: nona Amélia ralhava com o menino para sair do canteiro e soltar as borboletas; ele atendia, mas cinco minutos depois, lá estava ele de novo a caçar.
Menino é menino!
O menino gostava de fazer e armar arapuca, que servia para caçar especialmente pombas do mato - naquela época era normal crianças do interior fazerem isso - ,
Mas, o que o menino mais gostava, além de brincar com seu carro de boi sob a sombra do pé de carambolas, era recolher, nos grandes ninhos, os ovos brancos de anus pela beleza de vê-los ficar azul e ver nona Amélia fazer colar. E lá se foi o menino em mais uma aventura, a subir numa enorme jabuticabeira para apanhar os ovos: os anus "grunhiam" brabos, pressentiam que boa coisa não iria acontecer. - A enorme jabuticabeira formada por dois galhos principais saindo do tronco em forma de ipsilon -. Quando o menino estava a, mais ou menos, vinte centímetros do primeiro ninho, com seu pequeno braço agarrado ao tronco, não viu a pequena taturana ao lado oposto do galho, tal como a proteger os futuros filhotes de anus, “queimando” seu braço.
Menino é menino!
E aos berros, o menino clamava por nona Amélia, que com sua sapiência agarrou a taturana matando-a, esfregando suas "tripas" ao pequeno braço do menino... e como que um bálsamo a dor se foi como um toque de magia.
Depois dessa experiência, nunca mais o menino foi pegar ovos de anus, nunca mais teve colares coloridos com os ovos azulados.
Mas... menino é menino!