quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

PERDERAM-SE AS TRADIÇÕES


Perderam-se as tradições

Numa mistura de gerações,
poucas tradições nos comandavam.
Para os homens eram as melhores situações.
Nós mulheres éramos castradas nas vontades
 que se avolumavam.
 
Éramos filhas do vento...
que não trazia satisfações.
A alegria permanecia nas danças,
que aprendíamos liberando emoções.
O eleito escolhido desde a infância...
morava ao lado, mas era desconhecido.
Não pertencia ao meio, culpa da mistura...
Que ora libertava, ora prendia... coração perdido.
Fiz tudo para preservar...
os princípios aprendidos,
 mesmo quando os antigos se foram.
Porém, fora do meio...
tradições nesta geração se perderam.
 
Vendo na mídia tanta atrocidade no meio familiar...
até sinto saudades da criação imposta.
O respeito a tudo nos era peculiar.
Hoje as pessoas choram sem entender,
 e sem resposta.
É como querer segurar o vento...
aprender a controlar a liberdade.
Só com posturas firmes e fortes...
do nascimento a mocidade.
Só assim corre-se livre e solto...
Sabendo os desvios e as diferenças.
Os filhos são bons aprendizes...
se os adultos conduzirem com firmeza
 e amor suas crianças.
Respeito não é tradição, é educação.
Ama também quem diz não.
É só ensinar sem preguiça...
e se fazer entender sem discussão.
Ainda tenho o olhar dos meus antepassados...
nesta controvérsia questão.
A hierarquia tem que ser respeitada.
É o que se ensina aos descendentes
 para não se ter maceração.
Vejo o quanto eles tinham razão.
Criando-nos respeitando com amor...
tudo o que se passava de geração a geração.
Porém, a vida foi corrompida,  e perderam-se as tradições.
 
Ruthy Neves

Violinos Mágicos- A lenda do beijo   
Formatação- Ruthy Neves
art by Ruthy Neves

O POETA E A DOR



    

 O Poeta e a dor
Ubirajara Mello de Almeida

Quando o frescor da vaidade passar
Do sonho infantil ao frio perverso
Perdão e lágrimas vão te humilhar
Nem terás do poeta nenhum verso.

Se a vergonha usar o orgulho como arma
Sentirás no próprio rosto a vergonha
Refletida na imagem do teu karma
Nascido pra sonhar pois já não sonha.

O tempo é testemunha deste drama
No conflito entre o peito e sua Musa
Fiel ao vil passado de dueto.
                 
Que o fio do cilindro emperre a trama
Para morrer o pranto em luz confusa
Quando a dor cultivar este soneto.


Mande seus versos para serem divulgados!
Repasse aos seus amigos, seja Solidário!
 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

OLHOS DE FOGO

OLHOS DE FOGO

São olhos que não me esquecerei
Esses olhos de fogo
Que penetra o espírito
E que queima
Como brasas
O coração
O deixando em cinzas
Talvez restos de sentimentos
Ocos, magoados, feridos...
Sem piedade de quem o amou
....

*Simone Fernandes*

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

SANGRA O SANTO SUDÁRIO

SANGRA O SANTO SUDÁRIO
Dora Dimolitsas


a espada é o elo,
           esbarra nas distorções,
               fazem os abismos de Breton
                                 no caracol do rebento
não há lamentos
                       Microcefalia, cólera, massas profanas
                                           ( os impúberes-psíquicos )
         deixam expostos o brilho
                         dos olhos,
                                          nos ossos do crânio sagrado


FONTE: DORA DOMOLITSAS (Poesias Avulsas







DORA DIMOLITSAS (POETAS DEL MUNDO)

Nascida no Acre em Sena Madureira, criada em colégio de freiras.
Trabalhou e se preparou profissionalmente no 5º Batalhão de Engenharia e Construção em Porto Velho, Rondônia.
Atuando na área de Saúde, estando presente na construção da cidade de Vilhena ,indo para São Paulo em 69, prestando concurso para o governo federal ( hoje aposentada.)
Prestando serviço no Hospital Brigadeiro, em São Paulo, Laboratorista com vários cursos de especialização em hematologia ,bioquímica, hemoterapia, citologia e citoquimica, bacteriologia.
Também com curso de puericultura e educação sanitária, participou de varias atividades nacionais de vacinas contra a poliomielite,  membro da CIPA, com estagio em Analises Clinicas na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras  de São Paulo. Trabalhou também no Hospital Ipiranga no período de epidemia de meningite, atuando ativamente na elaboração de exames para definição da meningite.
Tem diversos cursos de Poesia e Teatro cursados na Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos.
Escritora,poetisa,atriz,escritora,produtora Cultural, e Jornalista.
Representante dos Projetos Culturais: Poemas a Flor da Pele, Proyecto Cultural /Sur/Paulista, com eventos dentro dos hospitais públicos, para pacientes, funcionários, e crianças  leucêmicas, e hemofílicas.
Cônsul de Poetas Delmundo.
Colunista do Jornal o Rebate e o São José
Produtora de eventos no Centro Cultural de São Paulo e na Biblioteca Alceu Amoroso Lima pela Prefeitura.
É poeta Prata da Casa das Rosas
Membro da
Academia de Letras da Mantigueira
Academia de Letras Itapirense de Letras e Artes
Academia de Cabo Frio,
Academia de Arte de Cabo Frio-ArtPop 
Academia Cabista de Letras, Artes  ,
Academia de Letras de Niteroiense de Belas Artes, Letras e Ciencias,
Membro da Literarte com o  Premio Literarte de Cultura de 2012
Guardiã do Cinquecentenário:
Premio da Academia Brasileira de Honrarias ao Merito
varias medalhas e Premios do Proyecto Cultural Sur
varios Premios da Companhia de Teatro Loucos do Taró, e CICESP
Autora das peças: Dama de Vermelho Por intenção, e Cortejo de Baco, além do Roteiro do filme: Os Druidas e o Segredo da Pedra da Luz (em parceria)
Auitora  de dois livros Solos
- Coruja Mitologica
– Poesias e Fractais.
Mais 120 antologias, Entre elas: 
- Destaques na Poesia em 2011
– de Raimundo Nonato, Delicatta,
– Poemas A Flor Da Pele,Varias Cronicas,
– Mais 20 Plaquetes

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

WANDO DEIXA SAUDADES

O cantor Wando que conheci na quadra da Escola de Samba Rosas de Ouro quando ainda era na Brasilândia com seu violão a caminho do seu primeiro Show no Rio de Janeiro, deixara saudades, parafraseando aqui o Poeta Zéca da Casa Verde, "Olha o moça na Janela que lindo é sorriso dela..[..], assim ele cantará no paraiso as belas canções e as polêmicas situações!

Aparecido Donizetti Hernandez
Poeta del Mundo/Marcas Poéticas



Faleceu hoje 08 de fevereiro de 2012 o Cantor Wando.
Morreu nesta quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012 em Nova Lima (MG) o cantor Wando, de 66 anos, que estava internado no Centro de Terapia Intensiva (CTI) do hospital Biocor, com problemas cardíacos.
Na madrugada da última sexta-feira, o cantor tinha apresentado melhora e retirado o dispositivo de assistência respiratória. O cantor foi internado no dia 27 de janeiro de 2012.
Wanderley Alves dos Reis compositor e cantor mais conhecido como Wando nasceu em Cajuri, Minas Gerais. Mas foi em Volta Redonda que Wando iniciou sua carreira enquanto trabalhava de motorista de caminhão e feirante para se manter. Ainda sim, arranjava um tempinho para compor suas músicas e batalhar pelas suas gravações.
Em 1973, o cantor Jair Rodrigues foi o primeiro a gravar uma canção sua "Se Deus Quiser", em parceria com Wando. Neste ano também, o cantor gravou um compacto simples com a música "Maria, Maria" que rendeu seu primeiro álbum intitulado "O Glória Deus no Céu e Samba na Terra". Em 1974, a cantora Angela Maria também gravava uma composição de sua autoria "Vá, Mas Não Volte". Este ano trouxe o sucesso definitivo para Wando com o LP "Moça" que vendeu mais de um milhão de discos. O cantor é conhecido por distribuir calcinhas em seus espetáculos e em seu CD "Chacundum", lançado em outubro de 1997, mostra um vistoso varal só de calcinhas em sua capa.
Entre inúmeros álbuns o último trabalho é de 2005, "Romântico Brasileiro e Sem Vergonha". Destaque para os grandes sucessos: "Fogo e Paixão", "Mordida na Maça", "Chora Coração", "Jardim de Amor", "Moça" entre tantos, hoje, Wando é conhecido em todo o país como símbolo da música romântica nacional.

fonte: Revista Zap
Por Elizabeth Misciasci
Revista zaP!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A PROVÍNCIA DE GUAIRÁ : Um pouco da história do antes de Maringá) Parte I

A. A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá) Parte I



A gente nova do Paraná precisa conhecer a história desta terra.

Bento Munhoz da Rocha Neto


Toda história é feita de muitas histórias, a partir de uma pré-história. Para contar, portanto, a história do Paraná, é preciso revirar as raízes remotas da América do Sul, recordar as origens da Província do Guairá, rever enfim, pelo menos em parte, a formação da comunidade paranaense.
Aqui se tenta fazê-lo, sucinta e descontraidamente, em forma de hipotética entrevista com um contador de histórias. Primeiro fala-se dos índios, dos colonizadores europeus e das reduções jesuíticas; em seguida entram em cena os mineradores e os tropeiros; finalmente aparecem os pioneiros do café, que se instalaram no norte e noroeste do Paraná a partir dos anos 1930.

Com exceção de Bartolomeu Torales, que comprovadamente existiu, os demais Torales citados neste relato são fictícios, convivendo com personagens e fatos da história real.
Calçadão em frente à prefeitura, Maringá, 1982, num domingo, manhã de sol. O velhinho caminhava sem pressa, enrolando um cigarro de palha. Abordou-me perguntando as horas. Mas queria mesmo era puxar conversa.

-Gosto muito desta praça, disse. Ela se compôs de tal modo que pode ser considerada uma homenagem aos primeiros habitantes da região.

-O senhor fala dos pioneiros da cidade?

-Falo dos índios que viveram aqui por perto, nas reduções implantadas pelos jesuítas no início do século 17. Repare bem: este conjunto é uma réplica daquelas antigas reduções.

Eu estava, sem dúvida, diante de um contador de histórias. Alto, magro, olhos de filósofo, cabelos lisos e negros com raros fios grisalhos, pele tostada. Apresentou-se:

-Meu nome é Rodrigo Antônio Torales, seu criado. Tenho um sítio no município de Ivatuba, que agora os filhos tocam. Acho que com 83 anos nas costas já posso descansar. Moro naquele prédio ali, com uma filha.

-Muito prazer. Mas o que tem a praça a ver com as reduções?

-O amigo já deve ter ouvido ou lido a respeito. As reduções (do verbo “reduzir”, que na “gíria” dos missionários significava “reunir para catequizar”) eram aldeias nas quais os jesuítas nucleavam os índios. Em cada redução havia uma grande praça, como esta em que agora estamos. No centro, a área de festas e esportes. Em torno, a igreja, a escola, o gabinete do alcaide, a corregedoria, a casa de hóspedes, e os grandes pavilhões residenciais em que cada família indígena tinha o seu aposento.

-Começo a perceber a semelhança.

-Observe: temos ali a catedral, com uma escola ao lado (o Instituto de Educação); temos também a prefeitura (gabinete do alcaide), o fórum (que corresponde à corregedoria), a área de lazer (centro de convivência) e nas imediações temos os hotéis e os prédios de apartamentos. O quadro é o mesmo, apenas com uma diferença: agora é tudo de cimento.

-O senhor tem imaginação fértil...

-Meu mais antigo avô, o índio Catu, nasceu numa redução jesuítica, não muito longe daqui

-O senhor é paranaense?

-Nasci paulista, em Sorocaba. Cheguei ao Paraná em 1932, exatos 300 anos depois que o índio Catu deixou estas paragens. Fiquei 10 anos em Londrina; em 1942 me instalei em Maringá e fui abrir o sitiozinho de que lhe falei, nas margens do rio Ivaí. Em Sorocaba fui oficial de farmácia.

-O senhor me parece um homem instruído.

-Leitura e tarimba de vida. Escola mesmo foi pouca. Sempre gostei muito de ler e de conversar com os mais velhos. Meu avô João Afonso, que era o dono da farmácia, tinha a estante cheia de livros e me ensinou a ser curioso. Foi também ele quem me contou as histórias de nossa família.

-Mas o senhor falava de outro avô, o índio Catu...

-Vou-lhe contar. Se o amigo tiver paciência e disposição, pode tomar nota e até depois escrever um livro.

-Pois então me conte tudo, desde o começo.

-Para contar desde o começo, eu teria que recitar o Gênesis... a história ficaria muito comprida. Podemos partir do século 15, um pouco antes do descobrimento do Brasil.

Percebendo que a prosa iria longe, sugeri ao velho Rodrigo que nos sentássemos num dos bancos da Avenida Getúlio Vargas. Ele tomou fôlego, pediu a um passante que lhe acendesse o cigarro, acendeu junto a memória. E que memória!


NAQUELE TEMPO...

-Naquele tempo, esta região toda era habitada pelos índios: guaranis e outros grupos. Viviam da caça, da pesca, da colheita de frutos nativos e de algumas formas de agricultura. Um paraíso, com a natureza lhes servindo permanente banquete. Nas “horas vagas”, divertiam-se com alguns esportes, dizem que até com um jogo parecido com o futebol de hoje. Dedicavam-se também a diversas modalidades de arte, no que, aliás, suponho que só perdessem para os incas, os mais adiantados da América do Sul.

-Ah, os incas do Peru... Fale-me deles.

-Se você quer, vamos lá: o fabuloso império inca desenvolveu-se nas grimpas dos Andes durante o século 15, com sede em Cuzco. Dominavam toda a cordilheira, desde o Equador até o Chile. Praticavam intensa agricultura, com eficiente sistema de irrigação e outras técnicas surpreendentes para a época. Exploravam minas, produziam excelente artesanato, sabiam tecer, tinham noções de medicina e astronomia. Realizaram também notáveis trabalhos de engenharia e arquitetura: edificações gigantescas, pontes, além de muitas estradas... cerca de 20 mil quilômetros de estradas. Alcançaram nível de tecnologia semelhante ao dos astecas do México e dos maias da América Central.

-E qual era o sistema de governo?

-Eram governados por uma espécie de imperador, tido como “descendente do Sol”, e um conselho de nobres. A sociedade era dividida em classes, que podemos chamar de nobres, militares, plebeus e escravos

-Escravos?!

-Tinham escravos, sim. Não eram tão “anjinhos” como se poderia imaginar. Iam abrindo estradas e submetendo as tribos menos fortes. Punham os vencidos a seu serviço nas minas e nas lavouras.

-Chegaram a escravizar guaranis?

-Os guaranis eram valentes e muito numerosos. Os incas não ousariam atacá-los. Há, porém, evidências de que os dois povos se comunicavam e mantinham relações comerciais e culturais. Pode ter sido graças a esse intercâmbio que os guaranis aprenderam a trabalhar com cerâmica e a construir estradas.

O CAMINHO DO PEABIRU

-Já li alguma coisa sobre um tal “Caminho do Peabiru”...

-Bem lembrado. Mas não era, na verdade, uma trilha única. Era uma rede de caminhos, ligando o interior ao litoral atlântico. O tronco principal, a partir das proximidades do salto das Sete Quedas, passava perto de Campo Mourão, continuava até onde está hoje Fênix, chegava a Castro e ali se bipartia: um ramo se dirigia ao litoral de Santa Catarina; outro, o mais movimentado, seguia rumo a São Paulo de Piratininga e descia a serra para alcançar São Vicente. Na direção oeste, do outro lado do rio Paraná, o caminho passava por Assunção do Paraguai e chegava às encostas dos Andes, fazendo conexão com a rede viária dos incas.

-Até o oceano Pacífico?

-Veja que proeza: uma “ponte” transcontinental ligando o Atlântico ao Pacífico!

-E por que se chamava “Peabiru”?

“Peabiru” significaria “Caminho da Montanha do Sol”, aludindo, certamente, às serras andinas, descritas como “resplandecentes” pela existência ali de muito ouro e prata. Outra versão diz que “Peabiru” vem de “Tapé Aviru”, significando “Caminho Fofo”. Os índios abriam a picada (com oito palmos de largura) e plantavam sobre o leito uma relva macia que assegurava a conservação, impedindo que naquele espaço crescessem árvores ou espinhais. Dessa forma, coberto de relva, o caminho ficava realmente fofo, atapetado. Imagine o trabalho deles: só de São Vicente até as barrancas do rio Paraná eram cerca de 200 léguas...

-Utilizando machados de pedra, devem ter levado anos nessa obra...

-Mas existe outro detalhe deveras interessante: os guaranis referiam-se àquelas trilhas chamando-as também “Caminho do Sumé”, ou “Zumé”. Segundo os jesuítas, era uma alusão ao apóstolo São Tomé, que teria andado por aqui.

-E aí então...

-Bem... não demorou muito e chegaram os europeus...

-E o paraíso perdeu a virgindade.

continua...



Fonte: Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes: email: www.pavilhãoliterario pavilhaoliterario@gmail.com


A PROVÍNCIA DO GUAIRÁ - Parte 2

A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá) Parte 2


ESPANHÓIS E PORTUGUESES

-No final do século 15, com o aperfeiçoamento da bússola, espanhóis e portugueses lançaram-se ao mar à procura de novas terras. Em 1492, o genovês Cristóvão Colombo, a serviço do rei de Espanha, desembarcou na América Central. Dois anos depois, em 1494, Portugal e Espanha, vizinhos e rivais na península Ibérica, assinaram o Tratado de Tordesilhas, dividindo entre si as terras descobertas e por descobrir no Novo Mundo, como se fossem herdeiros diretos de Adão e Eva. Em 1500, Pedro Álvares Cabral ancorou na costa brasileira, ficando ali a bandeira lusitana.

-Onde ficavam exatamente as fronteiras?

-O Tratado de Tordesilhas baseou-se numa linha imaginária que passava onde está hoje Belém do Pará e descia numa reta até Laguna, no litoral catarinense. O que houvesse a oeste da linha demarcatória seria da Espanha; o que existisse a leste seria de Portugal.

-Mas assim o Brasil ficaria pequeno...

-E foi justamente por isso que portugueses e espanhóis brigaram tanto, por muitos e muitos anos, até chegar-se à definição das fronteiras atuais.
 
-O Paraná era da Espanha?...

-Correto. Aqui onde nós estamos era território espanhol, até as encostas da serra do Mar, aos cuidados de um governador sediado em Assunção do Paraguai, que por sua vez era subordinado ao vice-rei do Peru.

-Que confusão!


-Creio ser necessário dar-lhe um resumo da história da América do Sul, para que você entenda melhor o contexto.

-Estou anotando.


-Pois bem: no início do século 16, enquanto os portugueses começavam a colonizar o Brasil, os espanhóis desciam da América Central e expandiam seu domínio na banda ocidental da América do Sul. Em 1532, numa expedição chefiada por Francisco Pizarro, chegaram ao Peru. Os incas, na época, estavam envolvidos numa tremenda guerra civil e os espanhóis aproveitaram para esmagá-los.

-Destruíram toda aquela antiga civilização?

-Quase toda. Restaram apenas algumas ruínas, que hoje constituem a maior atração turística do Peru. Pizarro estabeleceu-se primeiramente em Cuzco. Em 1535, fundou a cidade de Lima, perto do mar, instalando ali o ponto de partida para outras expedições. Em 1542, foi criado o vice-reinado do Peru, com a capital em Lima e jurisdição desde o Equador até os confins do Chile e da Argentina. O Peru tornou-se logo uma das “meninas dos olhos” do rei de Espanha: pela existência de numerosa mão de obra indígena (com os incas passando de senhores a escravos) e, sobretudo, pela fartura de minerais preciosos, a exemplo das minas do Potosi (hoje em território boliviano).

-Se entendi bem, o Paraná fazia parte desse vasto vice-reinado...

-O Paraná sim, como extensão do Paraguai. Daqui a pouco voltaremos a conversar sobre isso.

-Prossiga.

-Os espanhóis continuaram avançando em duas direções: de norte para sul, a partir de Lima; de sul para norte, a partir do rio da Prata, que eles haviam descoberto em 1516. Em 1536 já haviam fundado o núcleo inicial de Buenos Aires. Ao mesmo tempo, no lado brasileiro, os portugueses firmavam suas raízes, agora sob o sistema de capitanias hereditárias. Em 1580, um fato novo: o soberano português Dom Sebastião morreu na célebre batalha de Alcácer-Quibir. Filipe II, rei de Espanha, herdou o trono de Portugal. Houve assim a união dos dois reinos, até 1640.

-Significa que, nesse período, o Brasil ficou sendo colônia espanhola...

-Exatamente. Portugal, porém, embora sujeito ao trono espanhol, continuou como estado mais ou menos autônomo, de tal forma que os portugueses e seus descendentes permaneceram donos do Brasil, em constantes escaramuças com os colonizadores castelhanos.

-Até quando eles brigaram?

-Até 1777. Nesse ano Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Santo Ildefonso, que retocou o Tratado de Madri de 1750, reconheceu finalmente a expansão da fronteira oeste da América Portuguesa e fixou novos limites. Mas ainda falta anotar alguns fatos importantes.

-Diga.

-Um ano antes do Tratado, em 1776, havia sido criado o vice-reinado do rio da Prata, com a capital em Buenos Aires e abrangendo a Argentina, o
Uruguai, o Paraguai e o território que mais tarde viria a ser a Bolívia. Com isso Buenos Aires assumiu a liderança política e econômica da região, enquanto o Chile, por sua vez, passou a ser uma capitania geral, subordinada ao vice-reinado do Peru.

-E aí, ao que me consta, começaram as lutas pela independência...

-Perfeito. Os ideais de liberdade que inspiraram a independência dos Estados Unidos em 1776 e deflagraram a Revolução Francesa em 1789 sacudiram a América do Sul a partir do início do século 19. Em 1810, os dominadores espanhóis já haviam sido expulsos da Argentina e do Uruguai. Iniciaram-se assim as lutas pela libertação de todo o hemisfério. Em 1811, o Paraguai conquistou a independência em campanha chefiada por José Gaspar Rodrigues Francia, o famoso Dr. Francia. Em 1817, o general argentino José de San Martin atravessou os Andes a cavalo, libertou o Chile em 1818 e proclamou a independência do Peru em 1820. Encontrou-se ali com o líder venezuelano Simón Bolívar, que em 1819 libertara a Venezuela e os territórios onde estão hoje a Colômbia e o Equador. Juntos, San Martin e Bolívar prosseguiram a luta até 1824, quando, vitoriosos na histórica batalha de Ayacucho, determinaram o fim do domínio espanhol na América do Sul. Dois anos antes, em 1822, Dom Pedro I havia proclamado a independência do Brasil, rompendo os laços com o trono português.

-E a Bolívia?

-A Bolívia é a antiga região do Alto Peru, que se separou do governo de Lima em 1825. O nome “Bolívia” é uma homenagem ao libertador Simón Bolívar.

-O senhor sabe das coisas!

-Leitura, seu moço. Leitura e boa memória.

A PROVÍNCIA DO GUAIRÁ

-Conversa vai, conversa vem, parece que perdemos o fio da meada. Falávamos do seu avô Catu...


-Voltemos então ao final do século 16. Estas terras, como lhe disse, pertenciam à Espanha, aos cuidados do governador de Assunção, compondo o imenso vice-reinado do Peru. Os colonizadores espanhóis, no ano de 1554, decidiram fundar povoações na margem leste do rio Paraná e após paciente trabalho diplomático firmaram um acordo de “convivência pacífica” com o grande cacique Guairá, a quem se deve o nome da região. Os castelhanos

enviados pelo governador Martínez de Irala fundaram primeiramente um vilarejo provisório, Ontiveiros, pouco abaixo do salto das Sete Quedas. Em 1556, o povoado foi transferido por Ruy Dias Malgarejo para três léguas acima, ode o Piquiri deságua no rio Paraná, ganhando o nome solene de Ciudad Real del Guairá. Vinte anos depois, em 1576, o mesmo Ry Malgarejo fundava na confluência dos rios Corumbataí e Ivaí a povoação denominada Villa Rica del Espiritu Santo, o mais avançado estabelecimento espanhol em sua expansão rumo ao Atlântico. No ponto onde existiu Villa Rica está atualmente a cidade de Fênix, assim chamada justamente por haver ressurgido das cinzas, como a ave mitológica. Fênix é a nova Villa Rica.

-Restam vestígios daquelas cidades espanholas?

-Umas poucas ruínas. Adiante explico.

-Vamos lá...
-Os castelhanos tinham fartos motivos para se fixarem na região do Guairá. Um desses motivos era barrar o avanço dos portugueses, que vinham de São Paulo pelo “Caminho do Peabiru” e sonhavam alcançar as minas do Potosi, descobertas nos Andes em 1545. Os espanhóis pretendiam também, por sua vez, estender seu domínio até o litoral leste, visando a assegurar uma saída pelo Atlântico. Outra razão ainda era a oportunidade de explorar a agricultura, principalmente a erva-mate, naquelas terras tão férteis, usando a mão de obra indígena em regime de escravidão. Havia aqui cerca de 200 mil índios...
-Era esse o acordo de “convivência pacífica” firmado com cacique?...
-Os espanhóis traíram o acordo, no que se refere à escravização dos nativos. Os guaranis, valentes e rebeldes, resistiram tanto quanto possível. Poucos deles aceitaram a escravidão. A maioria continuou enfrentando os invasores, chegando em várias ocasiões a atacar as povoações espanholas. Foi por isso que o rei de Espanha, na época Filipe III, acolhendo sugestão do governador de Assunção, decidiu confiar aos missionários jesuítas a pacificação dos índios.
-Quando foi isso?


-No comecinho do século 17. Os jesuítas já trabalhavam no Paraguai desde o final do século 16. Em 1602, chegaram ao Guairá para os primeiros contatos. A esperança do rei era que os missionários convertessem e serenizassem os guaranis, facilitando assim a penetração espanhola. De sua parte, os padres traziam o projeto de nuclear os nativos em aldeias fixas, onde lhes pudessem dar assistência material e religiosa, orientá-los para um tipo mais sofisticado de sociedade e defendê-los contra os que pretendiam escravizá-los.

-Seriam as famosas “reduções”, de que o senhor falava?

-Exatamente. Já chegaremos lá. A Carta Régia de 1608 criou oficialmente a “Província do Guairá”, cujos limites eram, ao norte, o rio Paranapanema; ao sul, o rio Iguaçu; a oeste o rio Paraná e, a leste, a serra do Mar.

-O atual estado do Paraná, quase todo...

-Ficavam de fora apenas a faixa litorânea e as terras entre o rio Iguaçu e a divisa de Santa Catarina. Pois bem: dentro da Província do Guairá os colonizadores espanhóis permaneceriam nas suas povoações (Ciudad Real e Villa Rica), e os jesuítas, com os índios, nas reduções, uns e outros acumulando a incumbência de assegurar para a Espanha o domínio do território.

 
Fonte: Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes ( Belo Horizonte - MG)