quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A PROVÍNCIA DE GUAIRÁ : Um pouco da história do antes de Maringá) Parte I

A. A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá) Parte I



A gente nova do Paraná precisa conhecer a história desta terra.

Bento Munhoz da Rocha Neto


Toda história é feita de muitas histórias, a partir de uma pré-história. Para contar, portanto, a história do Paraná, é preciso revirar as raízes remotas da América do Sul, recordar as origens da Província do Guairá, rever enfim, pelo menos em parte, a formação da comunidade paranaense.
Aqui se tenta fazê-lo, sucinta e descontraidamente, em forma de hipotética entrevista com um contador de histórias. Primeiro fala-se dos índios, dos colonizadores europeus e das reduções jesuíticas; em seguida entram em cena os mineradores e os tropeiros; finalmente aparecem os pioneiros do café, que se instalaram no norte e noroeste do Paraná a partir dos anos 1930.

Com exceção de Bartolomeu Torales, que comprovadamente existiu, os demais Torales citados neste relato são fictícios, convivendo com personagens e fatos da história real.
Calçadão em frente à prefeitura, Maringá, 1982, num domingo, manhã de sol. O velhinho caminhava sem pressa, enrolando um cigarro de palha. Abordou-me perguntando as horas. Mas queria mesmo era puxar conversa.

-Gosto muito desta praça, disse. Ela se compôs de tal modo que pode ser considerada uma homenagem aos primeiros habitantes da região.

-O senhor fala dos pioneiros da cidade?

-Falo dos índios que viveram aqui por perto, nas reduções implantadas pelos jesuítas no início do século 17. Repare bem: este conjunto é uma réplica daquelas antigas reduções.

Eu estava, sem dúvida, diante de um contador de histórias. Alto, magro, olhos de filósofo, cabelos lisos e negros com raros fios grisalhos, pele tostada. Apresentou-se:

-Meu nome é Rodrigo Antônio Torales, seu criado. Tenho um sítio no município de Ivatuba, que agora os filhos tocam. Acho que com 83 anos nas costas já posso descansar. Moro naquele prédio ali, com uma filha.

-Muito prazer. Mas o que tem a praça a ver com as reduções?

-O amigo já deve ter ouvido ou lido a respeito. As reduções (do verbo “reduzir”, que na “gíria” dos missionários significava “reunir para catequizar”) eram aldeias nas quais os jesuítas nucleavam os índios. Em cada redução havia uma grande praça, como esta em que agora estamos. No centro, a área de festas e esportes. Em torno, a igreja, a escola, o gabinete do alcaide, a corregedoria, a casa de hóspedes, e os grandes pavilhões residenciais em que cada família indígena tinha o seu aposento.

-Começo a perceber a semelhança.

-Observe: temos ali a catedral, com uma escola ao lado (o Instituto de Educação); temos também a prefeitura (gabinete do alcaide), o fórum (que corresponde à corregedoria), a área de lazer (centro de convivência) e nas imediações temos os hotéis e os prédios de apartamentos. O quadro é o mesmo, apenas com uma diferença: agora é tudo de cimento.

-O senhor tem imaginação fértil...

-Meu mais antigo avô, o índio Catu, nasceu numa redução jesuítica, não muito longe daqui

-O senhor é paranaense?

-Nasci paulista, em Sorocaba. Cheguei ao Paraná em 1932, exatos 300 anos depois que o índio Catu deixou estas paragens. Fiquei 10 anos em Londrina; em 1942 me instalei em Maringá e fui abrir o sitiozinho de que lhe falei, nas margens do rio Ivaí. Em Sorocaba fui oficial de farmácia.

-O senhor me parece um homem instruído.

-Leitura e tarimba de vida. Escola mesmo foi pouca. Sempre gostei muito de ler e de conversar com os mais velhos. Meu avô João Afonso, que era o dono da farmácia, tinha a estante cheia de livros e me ensinou a ser curioso. Foi também ele quem me contou as histórias de nossa família.

-Mas o senhor falava de outro avô, o índio Catu...

-Vou-lhe contar. Se o amigo tiver paciência e disposição, pode tomar nota e até depois escrever um livro.

-Pois então me conte tudo, desde o começo.

-Para contar desde o começo, eu teria que recitar o Gênesis... a história ficaria muito comprida. Podemos partir do século 15, um pouco antes do descobrimento do Brasil.

Percebendo que a prosa iria longe, sugeri ao velho Rodrigo que nos sentássemos num dos bancos da Avenida Getúlio Vargas. Ele tomou fôlego, pediu a um passante que lhe acendesse o cigarro, acendeu junto a memória. E que memória!


NAQUELE TEMPO...

-Naquele tempo, esta região toda era habitada pelos índios: guaranis e outros grupos. Viviam da caça, da pesca, da colheita de frutos nativos e de algumas formas de agricultura. Um paraíso, com a natureza lhes servindo permanente banquete. Nas “horas vagas”, divertiam-se com alguns esportes, dizem que até com um jogo parecido com o futebol de hoje. Dedicavam-se também a diversas modalidades de arte, no que, aliás, suponho que só perdessem para os incas, os mais adiantados da América do Sul.

-Ah, os incas do Peru... Fale-me deles.

-Se você quer, vamos lá: o fabuloso império inca desenvolveu-se nas grimpas dos Andes durante o século 15, com sede em Cuzco. Dominavam toda a cordilheira, desde o Equador até o Chile. Praticavam intensa agricultura, com eficiente sistema de irrigação e outras técnicas surpreendentes para a época. Exploravam minas, produziam excelente artesanato, sabiam tecer, tinham noções de medicina e astronomia. Realizaram também notáveis trabalhos de engenharia e arquitetura: edificações gigantescas, pontes, além de muitas estradas... cerca de 20 mil quilômetros de estradas. Alcançaram nível de tecnologia semelhante ao dos astecas do México e dos maias da América Central.

-E qual era o sistema de governo?

-Eram governados por uma espécie de imperador, tido como “descendente do Sol”, e um conselho de nobres. A sociedade era dividida em classes, que podemos chamar de nobres, militares, plebeus e escravos

-Escravos?!

-Tinham escravos, sim. Não eram tão “anjinhos” como se poderia imaginar. Iam abrindo estradas e submetendo as tribos menos fortes. Punham os vencidos a seu serviço nas minas e nas lavouras.

-Chegaram a escravizar guaranis?

-Os guaranis eram valentes e muito numerosos. Os incas não ousariam atacá-los. Há, porém, evidências de que os dois povos se comunicavam e mantinham relações comerciais e culturais. Pode ter sido graças a esse intercâmbio que os guaranis aprenderam a trabalhar com cerâmica e a construir estradas.

O CAMINHO DO PEABIRU

-Já li alguma coisa sobre um tal “Caminho do Peabiru”...

-Bem lembrado. Mas não era, na verdade, uma trilha única. Era uma rede de caminhos, ligando o interior ao litoral atlântico. O tronco principal, a partir das proximidades do salto das Sete Quedas, passava perto de Campo Mourão, continuava até onde está hoje Fênix, chegava a Castro e ali se bipartia: um ramo se dirigia ao litoral de Santa Catarina; outro, o mais movimentado, seguia rumo a São Paulo de Piratininga e descia a serra para alcançar São Vicente. Na direção oeste, do outro lado do rio Paraná, o caminho passava por Assunção do Paraguai e chegava às encostas dos Andes, fazendo conexão com a rede viária dos incas.

-Até o oceano Pacífico?

-Veja que proeza: uma “ponte” transcontinental ligando o Atlântico ao Pacífico!

-E por que se chamava “Peabiru”?

“Peabiru” significaria “Caminho da Montanha do Sol”, aludindo, certamente, às serras andinas, descritas como “resplandecentes” pela existência ali de muito ouro e prata. Outra versão diz que “Peabiru” vem de “Tapé Aviru”, significando “Caminho Fofo”. Os índios abriam a picada (com oito palmos de largura) e plantavam sobre o leito uma relva macia que assegurava a conservação, impedindo que naquele espaço crescessem árvores ou espinhais. Dessa forma, coberto de relva, o caminho ficava realmente fofo, atapetado. Imagine o trabalho deles: só de São Vicente até as barrancas do rio Paraná eram cerca de 200 léguas...

-Utilizando machados de pedra, devem ter levado anos nessa obra...

-Mas existe outro detalhe deveras interessante: os guaranis referiam-se àquelas trilhas chamando-as também “Caminho do Sumé”, ou “Zumé”. Segundo os jesuítas, era uma alusão ao apóstolo São Tomé, que teria andado por aqui.

-E aí então...

-Bem... não demorou muito e chegaram os europeus...

-E o paraíso perdeu a virgindade.

continua...



Fonte: Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes: email: www.pavilhãoliterario pavilhaoliterario@gmail.com


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