segunda-feira, 16 de julho de 2012

GRAÇA REDENTO


GRAÇA REDENTO
Valdir de Macedo
Acervo: Poeta Hernandez


Depois que o meu paizin’
foi embora lá par’ o Beleléu
Lugar aquele que sei
Que é um cantin’ do Céu
As coisa si complico
Acervo Poeta Hernandez
Ficar’ amarga qual fel.

A mamãe não queria
Mas teve que mi tirá
D’ escolhinha da fessor’ ineiz
Que era pra mi ajudá
Ela trabaiá na roça.
E lá ia eu capiná.

Troquei as minha brincadeira
C’ aquela linda bunequinha
De pano, que papai mi dexô
Que mi fazia tão flizinha.
Pela dur’ e rud’ inxada.
Acervo: Poeta Hernandez
Que mi dexava suadinha.

Mas não era só trabaio.
Minha mamãe s’ abalava
Pra igreja no domingo
Cunsigo ela mi levava.

N’ escola todos mangava
Dele pruque ele era
Defeituoso duma perna,
Zoroin”, mas é de vera
El’ er’ a pessoa mais pura
Que já vi na noss’ era.

Sim, é, meus bom amigo,
Isso eu lis poss’ afirma.
Veiz ou outr’  em cas’ el’ ia
Para tenta m’ insiná
As lição qu’ el’ aprendia
N’ escola do nosso lugá.

Ah! Meu Deus, com’ eu quiria
Estudá e me formá
Sê também uma fessora.
Mas  vida m’ era má.
Tinha que ced’ acordá
Prá í pra roça tabaiá

E assim eu fui cresceno
Sem tê tempo de sê criança
Sem tê direit’ a sonhá...
Maseu tinh’ a isperança
Que a coisa ia muda.
Um dia fomo numa dança.

Era festa de São João
Fiz par com meu amiguin’
Miguelin’ e dançamo muito.
Depois setam’ um poquim’
Pra gente si discansá
Bateno um bom papin’.

Cunversa vai, conversa vem
Foi quando ele mi disse
Qu’ ele queria si casá
Cumigo quando crescesse.
Ele tomô ‘ a minha mão,
Todo cheio’ de meiguice.

Aí, bejô na mina face.
Diss’ a ele qu’ eu também
Queria sê sua mlé
Chaman ‘ ele de meu bem.
Mas Deus, que ri o destino,
Por nóis não disse amém.

Não, não queria Ele assim.
Oh! Tristeza! Tadin’! Miguelin’!
Meu amiguim’, qu’ eu amava
Foi ro beleléu, piquininin’
Ainda tão criançolinha
Tão puro e inocentin’.

A causa foi a miserável
Da bruta subnutrição
Que já levô tanta criança
Dest’ ingrat’ ermo sertão
Sem que ninguém faça nada
Pra ‘ mior’ á a situação.

Eu não aaceitava isso
Fiquei de mal co Papai
Do Céu, que primeiro tinha
Levado meu amado papai;
Agora, meu bom miguelin’.
Deus não ouvia meus ai.

Chorava tanto no escuro
Com’ u ‘ a mártir sofredora
Que já não aguentava mais
Sofrê com ‘ u ‘ a pecadora
Que não merecia perdão
Nem sua Graça Redentora.

Mas o que eu não sabia
Era qu’ él’ indo eua ia recebê.
Numa bunita procissão
Que cês deve di sabe
Que é na Semana Santa,
Tão bela da gente vê.

Lá tinha gente vestida
Com roupar qui nem aas d’ anjo.
Pur tudo qu’ é mais sagrado
Vi o são Miguel Arcanjo
Com meu pai e Miguelin’
Iluminados qual ajo

No meio da procissão
Acenaro para mim
Jogaro-me mui beijin’s
Que viro flô de jasmim
Que mi vinham flutuano
E caíam sobre mim.

Desde aí, então, eu fiz
As pazes com o Supremo
Pois bem seis que mais tarde
Ou mais cedo nóis iremo
Todos estar lá com ele.
Daí, nóis não mais sofreremo.


São Paulo, 31 de outubro de 2009.
Zona Leste – Guaianazes – Jardim Soares

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