segunda-feira, 5 de julho de 2010

TERRA PROMETIDA

A arte literária é consequência da própria vida, viver é a arte do inexplicável, das dúvidas e da esperança.
Aparecido Donizetti Hernandez


TERRA PROMETIDA
Lairton Trovão de Andrade
(1967)


Quando a selvageria d'outros reinos
Massacravam varões, damas e gênios
- Os imortais condores alpinistas -
A ambição do povo lusitano
Cruzava mil correntes do oceano,
Em busca de históricas conquistas.

Do Himalaia as torres repentinas
Não divisavam "aves de rapinas",
Revoando em torpes potentados;
A inocência do Ganges, em Bengala,
Revelava aos "chacais" brilho d'opala
No imenso-além do jângal mergulhados.

Então, o reino airoso do rajá
Sentiu a derrocada em Calcutá
Retumbar no país do Paquistão;
Nem os bravos sultões do bramanismo
Contiveram o longo cataclismo,
Sacudindo riquezas da região.

Pérolas, cristais, âmbar e diamantes
- Riquezas de valores empolgantes -
Rolavam pelos mares e savanas...
Safiras, rubis, pratas e marfins,
Usurpados por falsos mandarins,
Cobriam infindáveis caravanas...

A proeza do Mor Capitão Gama
Demolira os mistérios do deus Brama,
Escondidos nos místicos hindus;
E a arma lusitana, em dia etéreo,
Oficiou gravar âncora do Império
Nos indianos outeiros, hoje... nus.

De Manuel Venturoso o patriotismo
Plantara nos sequazes heroísmo
E, no além-mar, conquista Portugal;
Disciplinado "bando da matilha"
Descobriria a mais famosa ilha,
Sob a bandeira astuta de Cabral.

Nas sonolentas ondas de Lisboa,
Venturoso marujo, lá da proa,
Debruçava submerso adeus às plagas...
Foi quando o antigo Tejo esperançoso
Sonhou ouvir o canto buliçoso
Do pindorama íngreme dos piagas.

Mas o fatal tridente de Netuno
- Horrível, poderoso, inoportuno -
Abriu milhões de portas aos tufões;
Furioso maremoto - inferno d'águas -
Ergueu em cataratas grandes vagas,
Rugindo sobre as naus como vulcões.

A borrasca em remoinho, que amedronta,
Às ondas do horizonte trouxe afronta,
Levando de Ataíde a pobre nau;
E o rochedo vil, lúgubre e insano
- Escudo portentoso do oceano -
Puniu a violação de Portugal.

Ante o irado rebu do mar cruel,
Surgiu Cabral no centro do escarcéu
Qual talismã impávido de Zeus;
Sua voz confiante e forte, impondo a calma,
Vibrou co'a extrema fé da essência d'alma:
"Senhores, nossa bússola é Deus"!

A brisa desfizera a negra bruma,
Movendo carinhosa e branca pluma,
Sobre as águas revoltas com oceanos;
Singravam juntas, sobre ondas fendidas,
Vozes incultas, doze naus perdidas,
Cortando espumas que geraram Vênus.

Canções secretas, muito além, nas plagas,
Sussurando, através das longas vagas,
Transmitiam saudades vãs do lar...
Desfalecidos risos flutuavam...
Dissimuladas dores soluçavam
Lágrimas de sal sobre o sal do mar...

No acalentar geral de ocultas vozes,
Sempre flutuando iam doze nozes
No silêncio que a dúvida encerra...
Pronto! o nauta acordou... viu aves no ar...
Ervas, em rodopios, n'água do mar...
Uma esperança viva bradou:... Terra!

E a frota lusitana, em grande festa,
Estacou ante cálida floresta,
Que se alçava além do areal...
A brisa, balouçando a ramagem,
Descobria a epopéia d'uma imagem
- O suspiro e febril Monte Pascoal.

Sob nuvens de gaivotas turbulentas,
Cansadas naus - pacíficas e lentas,
O porto tropical foram beijar...
As montanhas de raras pedrarias
E das valas pauis, em agonias,
Aspiravam também à luz brilhar.

O conselho da tribo arrefecida
Reuniu-se na ocara envelhecida,
No flautear tão choroso do boré...
E invocava o ardil da boicorá...
E clamava a vingança de Anhangá...
E dançava, em delírio, o pajé...

Junto à rede trançada de cipó,
Cismava o degredado, sempre só...
E fugiu pela selva mais daninha...
Em meio ao farfalhar torvo de fera,
Pressentiu um poema à nova era,
Escrito pela pena de Caminha.

Mas os índios da taba perturbada
Escalaram a trilha já sulcada,
Sob o grito atenuado do cacique.
Viram Deus de Tupã surgir glorioso,
Sob a forma do trigo misterioso,
Aureolando as mãos de Frei Henrique.

O reino português fez jus às terras,
Das planícies aos píncaros das serras,
Mergulhados nas nuvens lá dos céus.
Tendo uma cruz - por cívico estandarte,
Um altar - por egrégio baluarte,
E o testemunho ínclito de Deus.

"Ilha de Vera Cruz, marca sagrada,
Pelo Cruzeiro altivo perpetuada
No regaço da Pátria estremecida;
Este solo, emanando leite e mel,
Jamais vistos nem mesmo em Israel,
Tem o nome de TERRA PROMETIDA!




Marcas Poéticas - direito autoral de Aparecido Donizetti Hernandez


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Lilian Regina de Andrade

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